quarta-feira, 27 de abril de 2011

Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as  outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e  liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para  um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho  amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina:  brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro  beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura  que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu anti  socialismo interno.  Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa.  Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de  nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na  cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida  doméstica é para os gatos. Tenho um cérebro masculino, como lhe  disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa.  Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas  diante de qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao  contrário do que penso: nessas horas não sei onde vão parar minhas  idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me  segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se. Sou  tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora,  porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada.  Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e alguns homens  também.(Martha Medeiros)


Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu anti socialismo interno.

Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.
Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas diante de qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei onde vão parar minhas idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se.
Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também.

(Martha Medeiros)


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